terça-feira, 29 de setembro de 2026

«aves autorais», Joana Bértholo

[do novo livro de J. B.]

RECORTE(s):

[...] Não há excepções nem abébias: qualquer narrativa que não tenha vindo de uma ave não ascende a literatura. Reparem. O Som e a Fúria? Um falcão. Todos os Dostoiévski, um condor! Moby Dick? Um rouxinol! Madame Bovary ou O Deserto dos Tártaros? Um melro! Cem Anos de Solidão? Topa-se logo que é coisa de pintassilgos...! Posso continuar indeterminadamente: Mrs. Dalloway, Dom Quixote e Finnegans Wake - estorninhos...! A Ilíada, o Decameron, ou o épico Gilgamesh, tordos! Muita gente está convencida de que o Fernão Capelo Gaivota  foi ditado por uma gaivota, mas não. É da autoria de um canário particularmente imaginativo. O que não deprecia em nada as gaivotas, a quem devemos monumentos literários tão importantes quanto A Divina Comédia, o I Ching ou o Mahabarata... [...]

              Joana Bértholo, (de «A esperança é a coisa com penas»), Do amor e de outros fantasmas, 2026 (Setembro), pp. 382-383
[OUTRO];